Almoço de domingo na casa da avó. Sua filha de 3 anos pede um biscoito antes da comida, ouve um não e começa a chorar alto, sentada no chão da sala. Alguém da família, com toda a boa intenção, comenta: "Não dá atenção. Se você olhar, ela vai fazer mais."

Você tenta. Vira para o outro lado e continua a conversa. Mas o choro aumenta. Ela vem até você, puxa seu braço, chora mais forte. E agora você fica dividida: se olhar, está ensinando que chorar funciona? Se não olhar, está deixando sua filha sozinha num momento difícil?

A resposta curta: depende do que você chama de ignorar. Não entrar em discussão, não responder a cada protesto e não mudar o limite só para o choro acabar costuma ajudar. Já deixar de lado uma criança que está em sofrimento intenso, com alguma necessidade não atendida ou em risco é outra coisa, e tende a piorar a situação. Entre esses dois extremos existe muito espaço, e a melhor resposta depende do comportamento, da criança e do momento.

Neste artigo, quero te ajudar a separar essas situações, para que você consiga decidir com mais segurança quando reduzir a interação, quando dar espaço, quando manter o limite e quando se aproximar.

O que as pessoas querem dizer com "ignorar a birra"

Parte da confusão vem do fato de que a mesma palavra é usada para atitudes muito diferentes. Quando alguém diz "ignora", pode estar falando de qualquer uma destas:

  1. Não discutir durante o choro. Você não rebate cada argumento nem tenta convencer a criança de que está certa.
  2. Não responder a cada protesto. Você disse o que precisava uma vez. Não precisa reagir a cada "mas eu quero!".
  3. Não mudar o limite só para o choro parar. O biscoito continua para depois do almoço.
  4. Dar espaço quando a criança não quer contato. Ela empurra sua mão ou vira as costas, e você respeita, sem sumir.
  5. Retirar a atenção de um comportamento específico, de forma planejada. É uma técnica pensada para comportamentos leves, como choramingar ou interromper, com regras bem definidas. Falo dela logo abaixo.
  6. Fingir que a criança não existe, ou retirar o afeto para puni-la. Virar as costas com frieza, "dar gelo", deixar claro que ela só terá atenção de volta quando "se comportar".

As quatro primeiras são formas de não alimentar uma disputa e cabem perfeitamente numa relação próxima e respeitosa. A quinta é uma ferramenta com indicação específica, que depende muito do contexto. A sexta é diferente de todas as outras: ela usa o vínculo como moeda de troca.

Quando alguém recomenda "ignorar" pensando na primeira atitude e outra pessoa entende a sexta, o conselho vira outra coisa. É por isso que você pode ouvir de uma pessoa que ignorar é o certo e de outra que ignorar faz mal. As duas podem estar falando de coisas diferentes.

Por que algumas pessoas recomendam ignorar

A ideia tem uma lógica que vale entender. Crianças aprendem com as consequências do que fazem, e a atenção dos adultos é uma consequência importante para elas. Se um comportamento leve, como choramingar para ganhar algo, costuma trazer muita atenção, discussão e negociação, ele pode se repetir mais. A proposta de algumas abordagens é retirar essa atenção enquanto o comportamento acontece e devolvê-la assim que ele para.

Usada com critério, essa estratégia tem seu lugar. Mas as próprias orientações de saúde infantil que a descrevem, como as do CDC, o órgão de saúde pública dos Estados Unidos, fazem ressalvas importantes:

  • ela é indicada para comportamentos leves e seguros, e não para qualquer choro;
  • não serve para quando a criança está com fome, cansada ou doente, porque nesse caso existe uma necessidade a ser atendida;
  • não serve para quando a criança está realmente angustiada e não consegue se acalmar sem ajuda;
  • comportamentos perigosos, como bater, se machucar ou quebrar coisas, não devem ser ignorados;
  • a segurança vem sempre em primeiro lugar, e a criança não deve ficar sozinha se isso não for seguro;
  • a atenção volta assim que o comportamento para;
  • tudo isso pressupõe uma relação com bastante atenção positiva no resto do dia.

Essas orientações também avisam que, quando a técnica começa a ser usada, o comportamento pode aumentar por um tempo. Isso pode acontecer em algumas situações, mas não é uma etapa obrigatória, nem prova de que a estratégia está funcionando. Também não é motivo para insistir a qualquer custo. Se a criança mostra angústia, alguma necessidade ou algum risco, a situação precisa ser reavaliada. Ninguém precisa aguentar qualquer intensificação do choro até a criança desistir.

Um ponto importante: perceber que a criança aprende com as respostas do ambiente não é o mesmo que dizer que ela manipula. A criança pode aprender, pelas consequências, a repetir certos comportamentos. Isso não significa que esteja manipulando ou agindo com maldade.

Quando ignorar pode piorar a situação

Retirar a atenção pressupõe que a criança tem recursos para se reorganizar sozinha e que o que está acontecendo é, basicamente, um protesto. Muitas vezes não é o caso. Ignorar tende a não ajudar quando a criança está:

  • com medo ou com dor;
  • com fome ou exausta;
  • sobrecarregada por barulho, luz, gente ou excesso de estímulos;
  • vivendo um sofrimento emocional intenso, daqueles em que ela parece não conseguir parar;
  • sem conseguir explicar o que quer ou o que está sentindo;
  • muito pequena, numa idade em que ainda depende bastante do adulto para se acalmar;
  • em risco de se machucar ou de machucar alguém.

Nesses casos, a crise não está pedindo uma consequência. Está pedindo ajuda, cuidado ou proteção. Se quiser entender melhor o que costuma estar por trás das birras, reuni as causas mais comuns em birras infantis: por que acontecem e como lidar.

Mas como saber o que está acontecendo? Não existe um jeito seguro de distinguir, só pelo comportamento, um protesto de um pedido de ajuda. Uma criança angustiada também pode olhar para você, negociar ou fazer pausas. E uma criança que está protestando também pode precisar de apoio. O que ajuda é olhar para o conjunto:

  • a idade e o momento de desenvolvimento da criança;
  • a segurança de todos;
  • a intensidade do que está acontecendo;
  • as necessidades físicas e emocionais, como sono, fome, dor ou medo;
  • o contexto e o que aconteceu antes;
  • sinais de que ela precisa de apoio, como procurar você ou parecer assustada;
  • como ela reage quando você se aproxima ou quando oferece espaço.

Quando não estiver claro, a prioridade é observar, manter a segurança e responder às necessidades que você consegue identificar, e não aplicar uma técnica no automático.

E vale não tirar conclusões apressadas para nenhum dos lados. Um choro mais alto não prova que a criança está manipulando. Também não prova que ela está sendo prejudicada. Ele é uma informação, que fica mais clara quando você olha para o contexto: como foi o dia, como ela dormiu, se comeu, se algo diferente aconteceu.

Quando dar espaço pode ajudar

Algumas crianças querem colo na hora da crise. Outras ficam ainda mais agitadas com toque, voz ou olhar. Elas empurram, viram as costas, gritam "sai!". Insistir no contato nesses momentos pode piorar.

Respeitar esse pedido é diferente de ignorar. A diferença está na finalidade e na forma como o adulto age. Dar espaço é respeitar a necessidade de distância da criança, continuando disponível de um jeito adequado à idade e à segurança. Retirar atenção ou afeto como punição é usar a interação como castigo, para controlar o comportamento. Cada criança pode viver essas situações de um jeito diferente, mas, do lado do adulto, a intenção e a postura são bem distintas.

Na prática, estar disponível pode ter muitas formas:

  • ficar no mesmo cômodo, fazendo algo tranquilo;
  • sentar a alguns passos, sem falar nem tocar;
  • dizer uma vez "quando você quiser, eu estou aqui" e esperar;
  • se aproximar devagar, de tempos em tempos, para ver se ela já aceita contato.

Você não precisa ficar colada o tempo todo, nem falar sem parar, nem tentar convencê-la de nada. Mas a distância precisa respeitar a idade e a segurança. Uma criança de 2 anos ainda precisa de um adulto por perto e atento. Uma criança mais velha pode preferir ir para o quarto sozinha por alguns minutos, e escolher isso é muito diferente de ser mandada para lá.

Como manter o limite sem ignorar a criança

O maior medo por trás do "não dá atenção" costuma ser este: "se eu acolher, ela vai aprender que chorando consegue o que quer". O medo faz sentido, e tem um fundo de verdade: a criança aprende com o que acontece depois do que ela faz. Isso pode incluir conseguir o que pediu, quando o limite muda, e também a forma de atenção que ela recebe em certos momentos. Mas isso não quer dizer que toda atenção durante o choro reforça a birra, nem que toda criança esteja buscando atenção. E, principalmente, mostrar que você está disponível e reconhecer a frustração não obriga você a mudar uma decisão adequada. Dá para estar presente e manter o não.

Por isso, ajuda separar:

  • Reconhecer a frustração: "Você queria muito o biscoito agora."
  • Sustentar a decisão: "Depois do almoço."
  • Não alimentar a discussão: você já explicou. Não precisa repetir o motivo dez vezes nem responder a cada argumento.
  • Atender necessidades reais: se ela está com muita fome porque o almoço atrasou, oferecer algo para comer não é ceder. É cuidar.
  • Rever um limite que não fazia sentido: se você percebe que a regra era desnecessária ou que faltava uma informação, mudar de ideia de forma consciente não é perder autoridade.
  • Ceder automaticamente para o desconforto acabar: isso, sim, quando vira padrão, costuma deixar as próximas crises mais longas e confusas para os dois.

Previsibilidade ajuda muito a criança. Mas firmeza não é rigidez. Você pode ser firme e, ainda assim, rever uma decisão quando tem um bom motivo para isso.

E vale lembrar do que acontece fora da crise. Atenção, brincadeira e conversa ao longo do dia, sem que a criança precise fazer nada para merecer, são importantes para o vínculo e para o aprendizado, com ou sem birras. Isso não garante menos crises, mas forma a base da relação dentro da qual os limites acontecem.

Quatro situações, respostas diferentes

Para ficar mais concreto, veja como a resposta pode mudar conforme a situação.

Ele protesta por mais um episódio. Seu filho de 4 anos está seguro, alimentado, descansado, e reclama alto porque a TV foi desligada. Aqui faz sentido dizer uma vez que você entende a vontade dele, manter a decisão e não entrar numa negociação a cada "só mais um". Você pode seguir com o que estava fazendo, por perto e disponível, sem responder a cada protesto. Quando ele se acalmar ou mudar de assunto, a conversa volta ao normal, sem sermão.

Ela está exausta e chora sem parar. Fim do dia, a criança perdeu a soneca, chora por tudo e vem até você com os braços estendidos. Não é hora de reduzir a atenção. Ela está pedindo ajuda para se acalmar. Colo, voz baixa, menos estímulo e, se der, adiantar o banho e a hora de dormir.

Ela afasta sua mão. A criança está com raiva, você se aproxima e ela empurra: "Não! Sai!". Respeite. Dê um passo para trás, diga que vai ficar ali perto e espere. De tempos em tempos, observe se ela já aceita aproximação.

Ele começa a bater ou corre para a rua. Aqui não existe espaço para ignorar. Você protege primeiro: segura, afasta, bloqueia, tira o objeto do alcance, com o mínimo de força e só pelo tempo necessário. A conversa fica para depois.

Se você quer exemplos do que dizer em cada um desses momentos, reuni frases e cuidados em o que dizer (e o que evitar) durante uma birra.

E se eu já ignorei meu filho durante uma birra?

Se você seguiu esse conselho em algum momento, provavelmente fez isso tentando acertar. É um conselho muito comum, dado com boa intenção, e às vezes é a única coisa que um adulto exausto consegue fazer para não explodir.

Uma situação isolada não define a relação de vocês, e não dá para afirmar que ela tenha causado algum dano. O que constrói a segurança de uma criança é o conjunto das experiências, não um episódio.

Se você sente que algo ficou mal resolvido, dá para retomar o contato depois: um abraço, um momento juntos, uma conversa simples sobre o que aconteceu, se a idade permitir. E, nas próximas vezes, experimentar outra forma de responder. Pais também aprendem, ajustam e mudam o jeito de agir. Isso não apaga o que passou, mas mostra para a criança que a relação continua aberta.

E se você percebe que costuma virar as costas porque está no limite, talvez o ponto central não seja a técnica, e sim o seu cansaço. Escrevi sobre isso em como manter a calma com os filhos nos momentos difíceis.

Quando procurar orientação

Birras fazem parte da infância, e nenhuma forma de responder vai fazer todas desaparecerem. Mas vale conversar com o pediatra se as crises são muito intensas ou frequentes e prejudicam bastante a rotina, se a criança se machuca ou machuca outras pessoas, ou se existem outras preocupações com o desenvolvimento, a comunicação ou o sono. Se a criança perde habilidades que já tinha, como a fala, isso merece avaliação por si só.

Algumas crianças, como as que têm necessidades sensoriais ou de comunicação específicas, podem precisar de respostas pensadas para elas. Nenhuma regra geral, nem "ignore" nem "acolha sempre do mesmo jeito", substitui esse olhar individual.

Ignorar ou acolher: a pergunta que mais ajuda

Talvez a pergunta mais útil não seja "devo ignorar ou não?", mas "do que meu filho precisa agora?". Às vezes, de um adulto que não entre na disputa. Às vezes, de espaço. Às vezes, de colo. E, em qualquer caso, de alguém que mantenha os limites necessários sem retirar o vínculo como castigo.

Não alimentar a disputa e abandonar a criança emocionalmente são coisas diferentes. Quando essa diferença fica clara, fica mais fácil sair da dúvida entre "ignorar" e "ceder" e encontrar um caminho que respeite a criança e o limite ao mesmo tempo.

Se essas crises acontecem com frequência na sua casa e você gostaria de entender melhor o que faz sentido para o seu filho e para a sua família, eu posso te acompanhar nesse processo, de forma individualizada.