Vocês estão no parquinho. Você avisa que é hora de ir embora, e seu filho de três anos começa a chorar, grita que não vai e se agarra no escorregador. Você está atrasada, as outras mães estão olhando, e uma pergunta toma conta da sua cabeça: "o que eu falo agora?"

Se você precisa de uma resposta rápida, ela é esta: no meio de uma birra, fale pouco. Uma ou duas frases curtas costumam bastar:

"Você queria ficar mais. Eu sei."

"Agora a gente vai embora. Eu estou aqui com você."

Depois disso, menos palavras e mais presença. Fique perto, mantenha a decisão, proteja quem precisar ser protegido e deixe a conversa para quando a criança estiver mais calma.

O essencial, para quem está com pressa:

  • Fale pouco. Frases curtas, voz baixa, sem sermão.
  • Mostre que entendeu o sentimento. "Você está muito bravo." "Você queria muito isso."
  • Mantenha o limite com calma. Entender a frustração não significa mudar a decisão.
  • Fique por perto. Presença não é o mesmo que insistir em conversar.
  • Proteja primeiro, se houver risco. Nesse momento, a frase certa importa menos do que a segurança.
  • Deixe a explicação para depois. A conversa que ensina costuma funcionar melhor quando a tempestade já passou.

Se você quer entender melhor por que as birras acontecem e como agir antes, durante e depois delas, reuni tudo em birras infantis: por que acontecem e como lidar.

Agora vamos por partes.

Por que falar menos costuma ajudar mais

Quando a criança está muito irritada ou muito frustrada, a capacidade de ouvir e pensar com calma fica bem reduzida. Entender o que acontece no cérebro da criança durante uma birra ajuda a explicar por quê. Nesse estado, uma explicação longa pode virar mais um estímulo num momento em que ela já está sobrecarregada. É como tentar argumentar com alguém que está chorando de soluçar.

Por isso, frases como esta costumam ter pouco efeito durante a crise:

"Filho, já são seis horas, a gente precisa ir porque ainda tem que fazer o jantar, depois tem banho, amanhã você tem escola e, se a gente não for agora..."

Não é que a explicação esteja errada. É que, naquele momento, ela dificilmente vai ser absorvida.

Algumas coisas costumam ajudar mais:

  • Frases curtas, de uma ou duas ideias. "Você está bravo. A gente vai embora."
  • Voz mais baixa e mais lenta do que a sua vontade no momento.
  • Repetir só quando for preciso. Se a criança perguntar de novo ou se o momento pedir, você pode repetir a mesma frase curta. Não precisa inventar uma frase nova a cada segundo, nem falar o tempo todo.
  • Pausas. Você não precisa preencher cada segundo com palavras.

Quando a emoção está muito intensa, voltar várias vezes à explicação sobre o motivo do não costuma ajudar pouco. Naquele momento, a criança está tomada pelo que sente. Por isso, nomear o sentimento ("você está muito bravo", "você queria muito") costuma fazer mais sentido do que reexplicar a razão da decisão.

Isso muda conforme a criança

Não existe uma frase certa para cada idade. A forma de falar depende de quanto a criança já compreende e consegue expressar, do temperamento dela e de quão intensa está a crise naquele momento.

Em geral, crianças pequenas tendem a se beneficiar de frases mais curtas e de mais presença física. Crianças maiores podem conseguir ouvir um pouco mais, principalmente se ainda estiverem protestando, e não completamente fora de si. Mas isso varia muito, até numa mesma criança, de um dia para o outro.

Uma boa bússola é observar: se a criança parece conseguir ouvir, você pode falar um pouco. Se cada palavra parece piorar, é hora de falar menos.

O que dizer em situações comuns

As frases abaixo são exemplos, e não roteiros. O importante é a ideia por trás de cada uma, adaptada ao seu jeito de falar. E vale lembrar desde já: nenhuma delas faz o choro parar na hora. O objetivo não é encerrar a birra o mais rápido possível, e sim atravessá-la sem piorar a situação e sem abrir mão do limite.

Quando precisa ir embora e ela não quer

Pode piorar:

"Se você não parar de chorar agora, nunca mais volto aqui com você."

Essa frase transforma um momento de frustração numa ameaça. A criança, que já estava triste por ir embora, agora pode ficar também com medo de perder aquele lugar para sempre. E como provavelmente vocês vão voltar ao parquinho, a ameaça não é cumprida, e a próxima perde força.

Alternativa possível:

"Eu sei que você queria ficar mais. É difícil ir embora quando a brincadeira está boa. Agora a gente precisa ir."

Essa frase mostra que você entendeu o sentimento e mantém a decisão. A criança pode continuar chorando, e isso não quer dizer que a frase falhou. Quer dizer que ela está triste por ir embora, o que faz sentido.

Se for preciso, ofereça ajuda concreta para o próximo passo:

"Você quer ir andando ou quer que eu te leve no colo?"

Quando ela ouve um não

Imagine que vocês estão no mercado e ela quer um brinquedo que você decidiu não comprar.

Pode piorar:

"Para de escândalo! Você tem um monte de brinquedo em casa e nunca está satisfeito."

A frase julga a criança e o desejo dela. Pode deixá-la envergonhada, além de frustrada.

Alternativa possível:

"Você gostou muito desse brinquedo. Hoje a gente não vai comprar."

Você reconhece o desejo e mantém o não. Não precisa justificar a decisão várias vezes, nem convencer a criança de que ela não deveria querer aquilo.

Quando ela quer algo impossível

Às vezes o choro é por algo que não depende de ninguém: o sorvete que caiu no chão, a chuva que cancelou o passeio, o desenho que acabou.

Pode piorar:

"Não adianta chorar, já caiu, pronto."

Alternativa possível:

"Você queria tanto aquele sorvete. Que chato que caiu."

Aqui não existe limite para manter. Existe uma frustração para atravessar. Reconhecer o desejo, mesmo que ele não possa ser realizado, costuma ajudar mais do que tentar convencer a criança de que não é nada.

Quando ela grita, reclama ou protesta

"Não é justo!" "Você é muito chata!" "Eu não vou!"

Pode piorar:

"Fala direito comigo! Abaixa esse tom agora!"

Entrar na disputa de volume costuma aumentar o conflito. A criança grita, o adulto grita mais alto, e a cena escala.

Alternativa possível:

"Você está muito bravo comigo porque eu disse não."

Você nomeia o que está acontecendo sem entrar na briga. A forma como ela falou pode ser conversada depois, com calma.

Quando ela diz "eu te odeio" ou "você é chata"

Essa é uma das frases que mais machucam os pais. É comum ouvi-la como um ataque pessoal.

Pode piorar:

"Então tá, se você me odeia, vai morar com outra pessoa."

"Que horror! Você não pode falar assim com a sua mãe!"

A primeira frase coloca o vínculo em risco, que é justamente o que dá segurança à criança. A segunda repreende a forma como a criança se expressou no auge da crise, sem ajudá-la a encontrar outra maneira de mostrar sua raiva.

Alternativa possível:

"Você está com muita raiva de mim agora."

No meio da crise, "eu te odeio" costuma ser a forma que a criança encontra para dizer "estou com muita raiva". É um sentimento intenso e passageiro, e não uma declaração definitiva sobre a relação. Respondendo ao sentimento, e não às palavras exatas, você evita transformar a frase em algo maior do que ela é.

Isso não significa que palavras ofensivas não importem. Depois, num momento tranquilo, dá para conversar: "Você estava com muita raiva. Você pode me dizer que está bravo comigo. Me chamar de chata machuca."

Quando ela não consegue ouvir nada

Há momentos em que a crise está tão intensa que nenhuma frase parece entrar. A criança grita, chora, se debate, tampa os ouvidos.

Nesse caso, a melhor resposta pode ser quase nenhuma palavra. Fique perto, numa distância em que ela possa te ver, com o corpo tranquilo. Se for falar, uma frase só, repetida de vez em quando:

"Estou aqui."

Se ela tampa os ouvidos, é um sinal para parar de falar. Sua presença calma pode comunicar mais do que qualquer explicação.

Quando você precisa sustentar o limite

Às vezes a criança insiste: "Só mais um pouco!", "Por favor, por favor!", "Por quê?". E o adulto entra numa sequência de negociações e justificativas.

Pode piorar: explicar de novo, com mais detalhes, a cada pedido. Ou ceder no quinto pedido depois de ter dito não quatro vezes.

Alternativa possível: dizer uma vez, de forma curta e calma, e repetir brevemente só quando for necessário.

"Eu sei que você quer. A resposta é não."

Depois disso, você não precisa continuar insistindo com palavras. O limite pode ser sustentado com a sua presença, com o silêncio e com ações coerentes com a situação: guardar o brinquedo, ajudar a criança a sair do local com segurança, sem deixá-la sozinha, ou ficar por perto enquanto a criança chora. Você não precisa encontrar um argumento novo a cada insistência. E não precisa que a criança concorde com o limite para que ele seja respeitoso.

Quando não dizer nada também é uma resposta

Muitos pais sentem que precisam estar falando o tempo todo para "fazer alguma coisa". Mas silêncio, quando acompanhado de presença, também comunica.

Algumas formas de estar presente sem falar:

  • ficar sentado perto, numa altura em que a criança possa te ver, se for seguro;
  • manter o rosto e a voz tranquilos;
  • esperar.

Oferecer contato é diferente de impor contato

Algumas crianças se acalmam mais rápido no colo. Outras, no auge da raiva, empurram, se afastam ou dizem "não encosta em mim". Observe os sinais:

  • se ela pede colo, ofereça;
  • se ela empurra, respeite o espaço sem sumir: "Tudo bem. Vou ficar aqui do lado. Quando quiser, eu te abraço.";
  • se ela vira as costas, você pode continuar por perto em silêncio.

Ficar próximo sem insistir também é acolher.

Chorar não significa que você errou

Uma armadilha comum é achar que, se a criança continua chorando, a frase "não funcionou". Mas acolher não significa fazer a emoção desaparecer. A criança pode estar triste, com raiva ou frustrada, e isso é parte da experiência de ouvir um não. O que você oferece é companhia para atravessar esse sentimento, e não um botão para desligá-lo.

Presença também é diferente de ignorar. Ficar perto, disponível e tranquilo é muito diferente de virar as costas ou fingir que a criança não está ali. Se você tem dúvidas sobre quando dar espaço e quando se aproximar, aprofundo essa diferença em é melhor ignorar uma birra?.

Acolher não é ceder

Compare estas duas falas:

"Eu entendo que você queria esse brinquedo."

"Está bem, vou comprar só para você parar de chorar."

A primeira reconhece o sentimento e mantém a decisão. A segunda troca o limite pelo fim do choro.

Ceder de vez em quando não destrói nada. Todos os pais, em algum momento, cedem por cansaço. E o choro da criança, na grande maioria das vezes, é uma frustração verdadeira, e não uma estratégia.

Quando a criança insiste muito depois de ouvir um não, a dúvida passa a ser quando manter a decisão e quando vale repensá-la. Expliquei isso em meu filho não aceita não.

O que pode acontecer é outra coisa. Quando o limite muda com frequência no meio da crise, a criança vai formando a expectativa de que aquela decisão talvez não seja definitiva. Isso pode deixar as próximas situações mais longas e mais difíceis para os dois, porque a frustração vem misturada com a dúvida sobre se o não vai mesmo se manter. Limites previsíveis costumam trazer mais segurança, mesmo quando frustram.

Também vale diferenciar três coisas:

  • Acolher uma emoção: reconhecer que a criança está triste, brava ou frustrada. Isso você pode fazer sempre.
  • Atender uma necessidade: se ela está chorando porque está com fome, com sono, machucada ou com medo, cuidar disso não é ceder, é cuidar.
  • Mudar um limite só para encerrar o desconforto: é aqui que vale mais atenção. Se ela está chorando porque queria mais um episódio do desenho, você pode acolher a frustração e manter o combinado.

O que evitar durante uma birra (e por quê)

  • Ameaças. "Se continuar, vou embora sem você." Ameaças podem assustar a criança e, quando não são cumpridas, perdem o efeito. Se forem cumpridas, como deixar a criança sozinha, podem ser assustadoras de verdade.
  • Chantagem emocional. "Você está deixando a mamãe muito triste." A criança passa a carregar a responsabilidade pelo sentimento do adulto, além do próprio.
  • Humilhações. "Que feio, todo mundo está olhando para você." "Chorona." A vergonha costuma intensificar a crise e não ensina outra forma de lidar com a frustração.
  • Comparações. "Olha seu primo, que está quietinho." Comparar costuma soar como julgamento e não ajuda a criança a entender o que está sentindo.
  • Minimizar o sentimento. "Não é nada." "Por causa disso?" Para a criança, naquele momento, é muita coisa. Diminuir o que ela sente pode fazê-la sentir que precisa gritar ainda mais para ser levada a sério.
  • Sermões longos. O sermão até pode fazer sentido mais tarde, em versão curta. No meio da crise, tende a se perder.
  • Exigir que pare de chorar imediatamente. "Engole o choro." "Para de chorar agora." O choro faz parte de como a criança lida com a frustração. Exigir que ele pare na hora costuma ter o efeito contrário, ou ensina que sentir é errado.
  • Promessas falsas. "Amanhã a gente volta", quando você sabe que não vai voltar. Promessas não cumpridas podem diminuir a confiança da criança no que você diz.
  • Ceder automaticamente para encerrar o desconforto. Como falamos acima, ceder às vezes não estraga nada, mas, quando vira a regra, a criança pode ficar sem saber se o não vai mesmo valer.

Preciso explicar o motivo do não?

Explicar ajuda a criança a entender o mundo, e isso é importante. A questão é quando explicar.

No meio da crise, uma explicação curta, de uma frase, pode bastar:

"A gente vai embora porque está escurecendo."

Se ela não ouvir, não precisa repetir a explicação de outros jeitos. A conversa mais completa pode acontecer antes da situação ("daqui a pouco a gente vai embora, faltam duas descidas no escorregador") ou depois dela, quando todos estiverem mais calmos.

Se houver risco: proteger vem antes de falar

Se, durante a birra, a criança bate, tenta machucar alguém, joga objetos perigosos, corre em direção à rua ou entra numa situação de risco, a prioridade não é encontrar a frase certa. É proteger.

Quando a criança se joga no chão, especialmente fora de casa, também é importante avaliar se dá para esperar ou se é necessário levá-la para outro lugar. Expliquei essas situações em criança se joga no chão: o que fazer.

Na maioria das vezes, isso dá para fazer sem tocar na criança:

  • afastar o irmão menor;
  • tirar do alcance o objeto que pode machucar;
  • se afastar, se ela estiver tentando bater em você.

Às vezes, porém, é preciso agir com o corpo: segurar a mão da criança que corre em direção à rua, ou pegá-la no colo para tirá-la de um lugar perigoso. Esse tipo de intervenção física deve ser exceção. Ela só se justifica para proteger a criança ou outras pessoas de um perigo imediato, deve ser proporcional ao risco e durar apenas o necessário.

Não é uma técnica para ensinar, não é castigo e não é uma forma de fazer a birra acabar mais rápido. Enquanto agir, fale o mínimo e sem humilhação:

"Não vou deixar você machucar seu irmão. Vou levar você para longe dele."

"Vou te pegar no colo porque aqui não é seguro."

Assim que o perigo passar, solte e volte à presença tranquila. A comunicação pode continuar com calma.

Se o mais difícil para você é quando a criança bate, escrevi sobre isso em Meu filho me bate quando está bravo: o que fazer?.

E se você também estiver no limite?

A forma como falamos durante uma birra depende muito de como nós estamos. É bem mais difícil escolher frases curtas e tranquilas quando você está cansada, atrasada e envergonhada diante de outras pessoas.

Se você sente que vai explodir, também vale falar pouco, e começar por você:

"Eu estou ficando nervosa. Vou respirar um pouco e já falo com você."

Isso não é fraqueza. É mostrar, na prática, uma forma de lidar com a própria raiva.

Se isso acontece com frequência, escrevi uma página mais completa sobre o que acontece com o adulto nesses momentos e como construir mais calma: Como manter a calma com os filhos nos momentos difíceis.

Quando conversar sobre o que aconteceu

A parte da birra que ensina costuma vir depois.

Quando a criança estiver mais calma, e isso pode levar alguns minutos ou algumas horas, dá para conversar de forma simples sobre o que aconteceu:

  • o que ela sentiu;
  • como ela pode mostrar isso da próxima vez;
  • o que vocês podem fazer de diferente.

Não precisa ser imediatamente. Às vezes, o melhor momento é na hora de dormir, no carro ou durante uma brincadeira.


Algumas birras são intensas, mas passam. Outras se repetem quase todos os dias, sempre nos mesmos momentos, e deixam a família inteira exausta. Se esse é o caso na sua casa, e você gostaria de olhar com mais calma para o que pode estar por trás dessas crises e para a forma como vocês têm reagido a elas, eu posso te acompanhar nesse processo. No meu acompanhamento individualizado, a gente olha junto para os momentos mais difíceis, para os limites e para formas de conduzir essas situações que façam sentido para a sua família.

Se as crises forem muito intensas e frequentes, se a criança costuma se machucar durante elas ou se algo no desenvolvimento dela te preocupa, vale também conversar com o pediatra, que pode avaliar se é o caso de buscar outros profissionais.